Sono prolongado em homens idosos pode aumentar o risco de perda de mobilidade

Sono prolongado em homens idosos pode aumentar o risco de perda de mobilidade

Um estudo recente conduzido por investigadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no Brasil, em colaboração com a University College London, no Reino Unido, revelou uma associação importante entre a duração do sono e a capacidade funcional dos idosos. De acordo com a investigação, os homens com 60 anos ou mais que dormem regularmente mais de nove horas por noite apresentam um risco significativamente superior de perder mobilidade ao longo do tempo.

A investigação analisou dados de 1.582 homens e 1.626 mulheres com idade igual ou superior a 60 anos, contribuindo para aprofundar o conhecimento sobre os efeitos do sono na saúde física durante o envelhecimento. Os resultados reforçam a importância de manter hábitos de sono equilibrados e levantam novas questões sobre a relação entre o descanso prolongado e o declínio funcional nos idosos.

O papel do sono no envelhecimento saudável
O sono desempenha um papel essencial na manutenção da saúde em todas as fases da vida. Durante o repouso nocturno, o organismo realiza processos fundamentais, como a recuperação muscular, a consolidação da memória, a regulação hormonal e a reparação celular.

À medida que as pessoas envelhecem, o padrão de sono tende a sofrer alterações naturais. Muitos idosos passam a acordar mais cedo, apresentam maior fragmentação do sono ou enfrentam dificuldades em adormecer. No entanto, tanto dormir poucas horas como dormir excessivamente pode estar associado a problemas de saúde.

Diversos estudos anteriores já tinham demonstrado que períodos insuficientes de sono podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, depressão e défice cognitivo. Agora, esta nova investigação sugere que o excesso de horas de sono também poderá representar um sinal de alerta, especialmente no que diz respeito à capacidade de locomoção dos homens idosos.

O que revelou o estudo?
Os investigadores acompanharam participantes com 60 ou mais anos para avaliar a relação entre a duração habitual do sono e alterações na mobilidade ao longo do tempo. A mobilidade foi medida através da capacidade de realizar actividades físicas básicas, como caminhar determinadas distâncias, subir escadas ou deslocar-se autonomamente.

Os resultados mostraram que os homens que dormiam mais de nove horas por noite apresentavam maior probabilidade de desenvolver limitações físicas e dificuldades de mobilidade quando comparados com aqueles que mantinham um período de sono considerado adequado.

Curiosamente, esta associação não foi observada com a mesma intensidade entre as mulheres participantes no estudo. Embora as razões para esta diferença entre sexos ainda não sejam totalmente compreendidas, os cientistas admitem que factores biológicos, hormonais, comportamentais e sociais possam contribuir para explicar os resultados.

Segundo os autores, é importante salientar que o estudo identificou uma associação e não uma relação directa de causa e efeito. Isto significa que dormir mais de nove horas não provoca necessariamente a perda de mobilidade. Em muitos casos, o sono prolongado pode ser um indicador precoce de problemas de saúde subjacentes.

Sono prolongado em homens idosos pode aumentar o risco de perda de mobilidade

Porque pode o excesso de sono estar associado à perda de mobilidade?
Existem várias hipóteses para explicar a relação entre o sono excessivo e a redução da capacidade física.

Uma das possibilidades é que dormir durante períodos prolongados esteja relacionado com níveis mais baixos de actividade física. Pessoas que passam mais tempo na cama podem movimentar-se menos ao longo do dia, favorecendo a perda de massa muscular, a diminuição da força e o agravamento da fragilidade associada ao envelhecimento.

Outra explicação prende-se com a existência de doenças crónicas. Condições como insuficiência cardíaca, doenças respiratórias, depressão, dores crónicas ou distúrbios neurológicos podem aumentar a necessidade de repouso e, simultaneamente, afectar a mobilidade.

Além disso, alterações inflamatórias no organismo poderão desempenhar um papel relevante. Alguns estudos sugerem que períodos excessivos de sono podem estar associados a níveis mais elevados de inflamação sistémica, factor que contribui para o desenvolvimento de diversas doenças e para o declínio funcional.

Também os distúrbios do sono, como a apneia obstrutiva do sono, podem influenciar estes resultados. Apesar de o indivíduo permanecer muitas horas na cama, a qualidade do sono pode ser reduzida, originando fadiga, sonolência diurna e diminuição da capacidade física.

A importância da mobilidade na população idosa
Manter a mobilidade é um dos pilares fundamentais para um envelhecimento saudável e independente. A capacidade de caminhar, subir escadas ou realizar actividades quotidianas sem ajuda está directamente relacionada com a qualidade de vida dos idosos.

Quando surgem limitações de mobilidade, aumenta o risco de quedas, hospitalizações, institucionalização e perda de autonomia. Além disso, a redução da actividade física pode desencadear um ciclo de declínio progressivo, marcado pela diminuição da força muscular, isolamento social e agravamento do estado geral de saúde.

Por essa razão, identificar precocemente factores associados à perda de mobilidade pode permitir a implementação de estratégias preventivas mais eficazes.

Quantas horas deve dormir um idoso?
Embora as necessidades individuais possam variar, a maioria das recomendações internacionais sugere que os adultos com 65 ou mais anos devem dormir entre sete e oito horas por noite. Este intervalo é geralmente considerado adequado para promover a recuperação física e mental.

Dormir ocasionalmente mais horas não constitui, por si só, motivo de preocupação. No entanto, quando um idoso começa a necessitar regularmente de mais de nove horas de sono ou apresenta alterações súbitas nos seus hábitos de descanso, poderá ser aconselhável procurar avaliação médica.

Mudanças persistentes no padrão de sono podem reflectir a presença de doenças ainda não diagnosticadas, efeitos secundários de medicamentos ou alterações emocionais, como ansiedade e depressão.

Como promover um sono saudável e preservar a mobilidade?
Especialistas recomendam a adopção de hábitos que favoreçam simultaneamente a qualidade do sono e a manutenção da capacidade funcional.

Entre as principais medidas destacam-se:

  • Manter horários regulares para deitar e acordar;
  • Praticar actividade física de forma regular, adaptada à condição física individual;
  • Evitar períodos prolongados de sedentarismo;
  • Reduzir o consumo de cafeína e álcool ao final do dia;
  • Criar um ambiente confortável e silencioso para dormir;
  • Realizar avaliações médicas periódicas para detectar precocemente problemas de saúde.

A prática regular de exercício físico, nomeadamente caminhadas, exercícios de fortalecimento muscular e treino de equilíbrio, continua a ser uma das estratégias mais eficazes para preservar a autonomia e prevenir a perda de mobilidade.

O estudo desenvolvido por investigadores da UFSCar e da University College London acrescenta novos dados à compreensão da relação entre o sono e o envelhecimento. Os resultados indicam que homens idosos que dormem mais de nove horas por noite poderão apresentar um risco acrescido de desenvolver limitações de mobilidade.

Embora sejam necessários mais estudos para esclarecer os mecanismos envolvidos, a investigação reforça a importância de monitorizar os hábitos de sono na população idosa. Mais do que contabilizar horas de descanso, importa avaliar a qualidade do sono e o estado geral de saúde.

Num contexto de envelhecimento crescente da população, promover hábitos saudáveis, incentivar a actividade física e acompanhar alterações persistentes nos padrões de sono são medidas fundamentais para preservar a autonomia, a qualidade de vida e o bem-estar dos idosos.

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